sábado, 22 de novembro de 2008

ECOS DO ALÉM 2

ECOS DO ALÉM 2

por antonio filho

Há muito tempo que não escrevo aqui n'OS OLHOS DA MORTE, na verdade, este blogue nasceu como uma extensão da comunidade orkutiana CINÉFILOS DE FORTALEZA. A idéia era que OS OLHOS DA MORTE publicassem as críticas despretensiosas dos membros da comunidade, mas parece que a coisa não deu muito certo, acredito que por diversas razões. Em primeiro lugar, porque eu, Antonio Filho, admito ser absolutamente indisciplinado com a pobre comunidade e indesculpavelmente desleixado com os outros membros, coisa que resulta em comentários esparsos com longos hiatos de tempo entre uma postagem e outra. Mas deixo aqui registrado o sincero desejo que os membros mais ativos da comunidade, Lélio Ivo, Marcílio Costa e David Aragão retornem à nossa comunidade com seus valiosos comentários sobre filmes e eventos de cinema e vídeo que ocorrem em Fortaleza e no Ceará. Porém, desculpem-me a digressão, não foi exatamente para justificar a pouca atividade que retorno a este espaço.

A bola da vez é o thriller de terror Ecos do Além 2, originalmente lançado em 2007 diretamente na tv estadunidense com o título Stir of Echoes: The Homecoming, sem passar pelas salas de cinema, o filme passou direto para o dvd. Não dá pra negar que Ecos do Além 2 seja uma eficiente forma de se gastar, sobressaltado por alguns sustos, uma boa hora e meia de nossas vidas. Mas, é só.

O tema é o mesmo de seu original de 1999, alguém que após ter sua realidade confundida com a vida dos mortos, precisa ajudar as almas desencarnadas a resolverem os conflitos deixados após uma morte violenta. Tema de certa forma desgastado, embora magistralmente explorado por pérolas do cinema de terror como O Sexto Sentido, Os Outros e o lindíssimo O Orfanato (esse também de 2007, sobre o qual farei questão de outro dia escrever um pouco sobre minhas impressões), que, todavia, possibilita reabrir a sempre válida discussão sobre a dimensão tanásica da existência humana sobre a terra. É claro que Ecos do Além 2, não deixa de dar sua contribuição por força do tema. Faz, mas faz mal feito.

Ecos do Além 2 infelizmente é uma obra feita para a tv, coisa que por si só já denuncia sua natureza descartável, feito para o consumo rápido, mal feito e de mal gosto. Não se pode discordar que o filme tem lá sua cota de sustos, mas sustos levamos até da conta de telefone! No entanto, ao que parece, o diretor e roteirista Ernie Barbarash (Cubo Zero, 2004) quis dar contornos políticos à estória do personagem principal, Ted Cogan, interpretado pelo sempre grande ator em potencial Rob Lowe. 

Ted Cogan é um oficial do exército estadunidense que retorna para casa após se envolver numa operação desastrada no iraque, que resultou na morte de uma família inteira que tentava conseguir proteção junto a uma base militar ianque fugindo dentro de um furgão, erroneamente, confundido com um carro bomba. O veterano Cogan, percebendo o equívoco, corre para salvar uma garotinha e é atingido por uma explosão, fica em coma e, após semanas em recuperação, retorna para sua família condecorado e traumatizado. Em casa, começa a ser atormentado pela aparição de um fantasma e, desesperado, vendo sua vida e a de sua família correr perigo, tenta conseguir a ajuda de uma espécie de médium que, como ele, também consegue manter contato com os mortos. Para isso, no entanto, Ted precisa estabelecer contato direto com o fantasma que lhe atormenta e conhecer sua história para entender os motivos que o faz perseguir a si e a sua família. O final é revelador.

O grande problema do filme é que nenhum desses estágios, sua vida de militar, sua maneira de lidar com a família, o estopim do trauma que lhe dá o poder de se relacionar com o mundo dos mortos, o contato travado com o médium que lhe aconselha e a solução do mistério não são bem desenvolvidos. Na verdade, o que parece é que o filme serve apenas para mostrar Rob Lowe (uma das 50 pessoas mais bonitas do mundo de 2005 segundo a People Megazine), pois nenhum dos personagem secundários é bem explorado. O que provavelmente contribuiu substancialmente para o resultado mediano do filme. Não bastasse os problemas com o roteiro e com a direção dos atores, o filme também demonstra a imensa xenofobia que os Estados Unidos alimentam em sua propaganda belicista contra os fantasmas desconhecidos do terror. A mensagem é tão descarada que, sem fazer qualquer arrodeio, o núcleo adolescente do filme composto pelo filho de Ted, sua namoradinha e um amigo marombado, protagoniza uma cena de puro racismo. 

Após se encherem de uísque e de guiar pela estrada um belíssimo conversível vermelho de estofamentos brancos (vejam os símbolos do american way of life), a mocinha, ao pedir que estacionassem o carro para ajudar um outro jovem num prego em meio à estrada, lê no outro automóvel um adesivo criticando o morticínio do povo árabe desencadeado pela sede de petróleo estadunidense. Insatisfeita e inconsolável porque seu pai, também a serviço do exército estadunidense, fora decapitado no Iraque, provoca e protagoniza uma cena de violência gratuita proferindo as seguintes pérolas contra o rapaz de aparência árabe: - Nossos pais, militares representando os interesses do estado estadunidense (o grifo é meu), não estão lutando por petróleo, mas para garantir uma paz de merda para vocês! Eles estão lutando para tirar o rabo de vocês da Idade Média!

Não bastasse o discurso distorcido justificando a cruzada democratista do capitalismo estadunidense, o filme peca um sem número de vezes nos sustos inúteis, nos efeitos piegas de fantasmas desaparecendo suavemente em total dissonância com o ritmo rápido da trama e no desfecho sem explicação para a maldição de Ted Cogan. Como se simplesmente não tivesse havido qualquer maldição ou loucura por parte de Cogan e houvesse apenas o fim de um crime violento e banal. Vejamos que a coisa posta assim, banaliza também o filme inteiro, tornando injustificáveis todos os acontecimentos sobrenaturais pelos quais passou o protagonista da trama.
 Outra impressão que fica é que, longe de amalgamar equilibradamente diferentes gêneros cinematográficos numa única narrativa de cinema, como, por exemplo, O Exorcismo de Emily Rose (2005), cujo diretor conseguiu uma equação perfeita entre o ambiente sobrenatural do terror de possessão e a tensão dos tribunais. Diferentemente, Ecos do Além 2 mal conseguiu alinhavar de maneira grosseira, num primeiro momento, um filme de guerra; num segundo momento, um filme de terror sobrenatural; e, num terceiro momento, como desfecho, encaixando desastrosamente um filme policial. Enfim, Ecos do Além 2 é apenas um ecoar distante da qualidade incontestável de seu filme original.

Diferentemente, Ecos do Além 2 mal conseguiu alinhavar de maneira grosseira um filme de guerra, num primeiro momento; num segundo momento, um filme de terror sobrenatural; e, num terceiro momento, como desfecho, encaixado desastrosamente, um filme policial. Enfim, Ecos do Além 2 é apenas um ecoar distante da qualidade incontestável de seu filme original.

sábado, 24 de maio de 2008

ANTI-HERÓI AMERICANO

ANTI-HERÓI AMERICANO

por lélio ivo

Uma vida medíocre pode ser bem complexa! É assim que podemos preparar quem ainda não assistiu a esse filme. O filme conta a história de Harvey Pekar, arquivista de um hospital que desde pequeno sofre em uma “sociedade de super herois”. Desde cedo Pekar não se encaixa neste modelo, e assim cresce dentro de sua normalidade. Quando jovem ele conhece um promissor desenhista chamado Robert Crumb, a partir deste momento os dois estabelecem uma amizade. Mesmo fazendo grande sucesso em todo país com seus trabalhos, Crumb continua a se encontrar com Pekar. A convivência com um amigo que é símbolo do sucesso na “terra da liberdade” começa a sufocar Pekar, que busca uma forma de mostrar que sua vida não é tão estranha a todos. Em um dia quando tudo estava dando errado ele passa a desenhar (mesmo sem habilidade) e contar as histórias de sua rotina, seu amigo Crumb vê e passa a publicá-las em uma revista em quadrinhos chamada “American Splendor”, e que passa a fazer grande sucesso. A partir daí varias histórias se desenrolam.

Desconstruir um modelo de comportamento vigente não parece ser a intenção do filme, parece-me apenas que a intenção de Pikar é se dar voz, e de alguma forma encontrar o sentido de sua vida em um meio que valoriza excessivamente a figura de herói, salvador de tudo e centralizador das ações, o super-homem. No filme podemos ver personagens peculiares se encontrando, enquanto nos universos dos quadrinhos super poderosos, vários heróis se encontram a todo tempo, nas historias de Pikar personagens comuns também o fazem. Assim como em nossas vidas acontecem a todo dia coisas que são fundamentais para o desenrolar de nossos projetos, mas que não parecem acontecimentos tão especiais, Pikar retrata isso em suas histórias. Sua intenção não é “pintar” novos modelos, mas simplesmente fotografá-los em seu habitat natural, como verdadeiramente são. Podemos ver através do filme que a complexidade de uma simples vida, de uma vida medíocre, são um universo à parte, no caso do filme e de seus quadrinhos, seu universo.


O filme consegue trazer a naturalidade da revista para as telas. Narrada pelo próprio Pekar, o que dá uma realidade maior ainda ao filme, as cenas são muitas vezes intercaladas com uma entrevista com o próprio. Isso acaba por proporcionar um ambiente de conversa informal. O Anti-heroi americano é o tipo de filme para se ter em casa, não por ter uma lição no final ou mesmo impactar, mas por conseguir expor facetas de uma sociedade doente de forma direta e eficaz. Aconselho a todos!

domingo, 27 de abril de 2008

MATCH POINT

MATCH POINT

por marcílio costa

Histórias de amor, desejo, traição, crime, culpa, enganos e desenganos há bastante nos filmes de Woody Allen, mas há muito tempo que o diretor nova-iorquino não nos presenteava com tão intenso filme, onde todos esses elementos se conjugam na perfeição. O filme começa com o plano de uma rede de tênis em que a narração fala da importância da sorte na vida de uma pessoa, sendo esse pensamento metaforizado pela bola de tênis que, batendo na rede, pode cair para a frente ou para trás, fazer ganhar ou perder.
A ação ocorre em Londres e não em Manhattan, onde o professor de tênis Chris Wilton (Jonathan Rhys Meyers) conhece Tom Hewett (Matthew Goode), cuja irmã, Chloe (Emily Mortimer) vai apaixonar-se perdidamente por Chris. No entanto, e apesar de namorar e, mais tarde, casar com Chloe, Chris sente um desejo brutal por Nola Rice (Scarlett Johansson), namorada de Tom no princípio do filme, com quem vai ter um caso.
Com esta pequena sinopse percebe-se a teia de relacionamentos que Woody Allen cria. Depois de já ter assistido praticamente todos os filmes dele, tenho a sensação que o seu trabalho enquanto diretor é melhor, quanto mais dramático é o material com que trabalha. Parece que é a sua veia "bergmaniana" vem à tona.
Quando a narrativa "estaciona", na altura em que Chris e Chloe já casaram e em que o primeiro é já um sucedido empresário, devido aos “favores” do pai de Chloe (a sempre fortíssima presença de Brian Cox), e mantém o “affair” com Nola, o que o diretor faz é intensificar as situações. Sente-se cada vez mais Chris farto do seu casamento, mas, importante, habituado ao seu estilo de vida classe alta, Chloe cada vez mais triste com o impasse do seu casamento e Nola cada vez mais ligada ao Chris, a quem vai pressionar parta abandonar Chloe. É este evoluir dos motivos das personagens, acentuado pelos enquadramentos cada vez mais fechados (ainda Bergman), pelos interiores muito bem filmados, pela trilha sonora imponente (óperas de Verdi a Rossini interpretadas por Caruso), que faz aumentar a tensão, preparando o trágico final.
Sem querer desvendar o final, diga-se apenas que é nesta última parte que Chris se decide em relação a uma das duas mulheres. É também aqui que entra o registro mais criminoso. Já agora, um aparte: é curioso ver como Allen filma muito bem coisas que não lhe são assim tão familiares: estamos a pensar neste crime, que se crê ser o mais violento da sua obra e que resulta muito bem, mas também nas cenas mais íntimas entre Rhys Meyers e Johansson, encenando um desejo intenso, aproveitando bem os corpos que tem para trabalhar.
Regressando ao trágico final - e as óperas explodem nestas últimas seqüências -, é a culpa que se trabalha nas últimas seqüências. Rhys Meyers revela toda a sua ambigüidade (aqueles olhos), numa magnífica composição que vai crescendo ao longo do filme. E como é bom não haver juízos morais - nem se estava à espera com um diretor desta qualidade - e perceber que há espaço para o espectador fazer os seus (se quiser). É também neste final que se regressa à idéia de sorte manifestada no princípio com a excelente idéia do anel decidir o rumo de uma vida. "Match Point" é um filme enorme. Woody Allen não precisou de sorte nenhuma para a bola passar para o lado de lá e sair vencedor.

sábado, 26 de abril de 2008

A DAMA DE SHANGAI


A dama de Shangai

por antonio filho

uma boa dica de filme psicológico é a Dama de Shangai. filme denso, com diálogos geniais onde o protagonista (micheal o'hara), o próprio orson welles, cita um de seus momentos aqui em fortaleza à época de sua passagem pelo brasil para a gravação de "jangadeiros". um dos grandes filmes da fase mítica hollywoodiana recheado de enquadramentos inesperados. vale a pena também prestar atenção na belíssima iluminação dada para o "beijo no aquário", um dos mais belos momentos do cinema já produzidos. outro momento memorável é o do tiroteio na sala de espelhos, é extremamente dramático e desconcertante. só coisa mesmo da cabeça do orson welles. ah, como não poderia esquecer, esse é um filme protagonizado, produzido e dirigido pelo genial criador de Cidadão Kane, considerado por boa parte da crítica mundial como sendo o melhor filme de todos os tempos. essa é a dica, a dama de shangai, e curta o esplendor da juventude de umas das mais belas mulheres que o cinema já teve, Rita Hayworth.

WOLF CREEK - VIAGEM AO INFERNO


WOLF CREEK - VIAGEM AO INFERNO

por antonio filho


mais um terrorzão daqueles de arrepiar até espinhaço de jacaré. wolf creek - viagem ao inferno surpreende. vem naquele jeitão de quem não quer nada e taus, e... bang! ou melhor... crack!!! estamos metidos até o pescoço na adrenalina apavorante que o diretor, produtor e roteirista Greg Mclean preparou para nós pobres viciados em víceras à mostra e gritos apavorados. baseado em fatos reais e com um estilão amador, o filme segue aquela trilha de jovens sem grana mas com muita vontade de pôr o pé na estrada e curtir o que a paisagem e a sorte puser na frente. mas não perdem por esperar, pois sempre existe um cidadezinha meio deserta com moradores pouco hospitaleiros, um prego no meio da estrada, um viajante simpático e misterioso. wolf creek é obra tipicamente autoral, terror de assassinos em série, sem deixar nada a perder para um encurralado (obra de estréia de steven spilberg, 1974). o filme tem em meu conceito 4 estrelinhas bem medidas, poderia até mesmo ter cinco não fosse o tema comum. mas não tenham dúvidas o filme vale o aluguel, tanto pela releitura proposta peloroteiro, quanto pela eficiência das imagens.

THE MACHINIST

The machinist

por antonio filho


"um exercício de horror psicológico, magistralmente manipulado", é assim que stephen holden do the new york times define the machinist ou o operário. o filme é protagonizado por christian bale que está magistral no papel do torneiro mecânico trevor reznik. embora o filme tenha em seu cerne um personagem que sofre de "psicose de dupla personalidade", papel amplamente abordado desde a obra prima de hitchicock, psicose, protagonizado por antony perkins, nada nele faz perder o valor. christian está preciso em cada gesto desesperado de trevor e cada ator coadjuvante reliza seu papel com a exatidão necessária para que a trama se desenrole sem obstáculos incompreensíveis, deixando os sobressaltos apenas pro deleite da assistência faminta de medo.
o filme não deixa nada a dever aos clássicos do gênero, como o já citado psicose, que aos quais, aliás, faz referência através dos nomes de seus diretores: romam polansky, alfred hitchicock, brian de palma.

e, vale o comentário, sem medo algum de exageros, christian bale, se revela um dos grandes atores desta nova geração, da mesma têmpera de um marlon brando, um robert de niro, um al pacino, pois todos esse atores foram capazes de mudar drasticamente seu próprio corpo para dar maior verossimilhança em seus personagens. christian chega a pesar 55 kilos, perdendo quase 50. é impressionante, lembra, por antítese, marlon brando em o poderoso chefão. o filme é memorável e vale a pena o aluguel.