ECOS DO ALÉM 2por antonio filho
Há muito tempo que não escrevo aqui n'OS OLHOS DA MORTE, na verdade, este blogue nasceu como uma extensão da comunidade orkutiana CINÉFILOS DE FORTALEZA. A idéia era que OS OLHOS DA MORTE publicassem as críticas despretensiosas dos membros da comunidade, mas parece que a coisa não deu muito certo, acredito que por diversas razões. Em primeiro lugar, porque eu, Antonio Filho, admito ser absolutamente indisciplinado com a pobre comunidade e indesculpavelmente desleixado com os outros membros, coisa que resulta em comentários esparsos com longos hiatos de tempo entre uma postagem e outra. Mas deixo aqui registrado o sincero desejo que os membros mais ativos da comunidade, Lélio Ivo, Marcílio Costa e David Aragão retornem à nossa comunidade com seus valiosos comentários sobre filmes e eventos de cinema e vídeo que ocorrem em Fortaleza e no Ceará. Porém, desculpem-me a digressão, não foi exatamente para justificar a pouca atividade que retorno a este espaço.
A bola da vez é o thriller de terror Ecos do Além 2, originalmente lançado em 2007 diretamente na tv estadunidense com o título Stir of Echoes: The Homecoming, sem passar pelas salas de cinema, o filme passou direto para o dvd. Não dá pra negar que Ecos do Além 2 seja uma eficiente forma de se gastar, sobressaltado por alguns sustos, uma boa hora e meia de nossas vidas. Mas, é só.
O tema é o mesmo de seu original de 1999, alguém que após ter sua realidade confundida com a vida dos mortos, precisa ajudar as almas desencarnadas a resolverem os conflitos deixados após uma morte violenta. Tema de certa forma desgastado, embora magistralmente explorado por pérolas do cinema de terror como O Sexto Sentido, Os Outros e o lindíssimo O Orfanato (esse também de 2007, sobre o qual farei questão de outro dia escrever um pouco sobre minhas impressões), que, todavia, possibilita reabrir a sempre válida discussão sobre a dimensão tanásica da existência humana sobre a terra. É claro que Ecos do Além 2, não deixa de dar sua contribuição por força do tema. Faz, mas faz mal feito.
Ecos do Além 2 infelizmente é uma obra feita para a tv, coisa que por si só já denuncia sua natureza descartável, feito para o consumo rápido, mal feito e de mal gosto. Não se pode discordar que o filme tem lá sua cota de sustos, mas sustos levamos até da conta de telefone! No entanto, ao que parece, o diretor e roteirista Ernie Barbarash (Cubo Zero, 2004) quis dar contornos políticos à estória do personagem principal, Ted Cogan, interpretado pelo sempre grande ator em potencial Rob Lowe.
Ted Cogan é um oficial do exército estadunidense que retorna para casa após se envolver numa operação desastrada no iraque, que resultou na morte de uma família inteira que tentava conseguir proteção junto a uma base militar ianque fugindo dentro de um furgão, erroneamente, confundido com um carro bomba. O veterano Cogan, percebendo o equívoco, corre para salvar uma garotinha e é atingido por uma explosão, fica em coma e, após semanas em recuperação, retorna para sua família condecorado e traumatizado. Em casa, começa a ser atormentado pela aparição de um fantasma e, desesperado, vendo sua vida e a de sua família correr perigo, tenta conseguir a ajuda de uma espécie de médium que, como ele, também consegue manter contato com os mortos. Para isso, no entanto, Ted precisa estabelecer contato direto com o fantasma que lhe atormenta e conhecer sua história para entender os motivos que o faz perseguir a si e a sua família. O final é revelador.
O grande problema do filme é que nenhum desses estágios, sua vida de militar, sua maneira de lidar com a família, o estopim do trauma que lhe dá o poder de se relacionar com o mundo dos mortos, o contato travado com o médium que lhe aconselha e a solução do mistério não são bem desenvolvidos. Na verdade, o que parece é que o filme serve apenas para mostrar Rob Lowe (uma das 50 pessoas mais bonitas do mundo de 2005 segundo a People Megazine), pois nenhum dos personagem secundários é bem explorado. O que provavelmente contribuiu substancialmente para o resultado mediano do filme. Não bastasse os problemas com o roteiro e com a direção dos atores, o filme também demonstra a imensa xenofobia que os Estados Unidos alimentam em sua propaganda belicista contra os fantasmas desconhecidos do terror. A mensagem é tão descarada que, sem fazer qualquer arrodeio, o núcleo adolescente do filme composto pelo filho de Ted, sua namoradinha e um amigo marombado, protagoniza uma cena de puro racismo.
Após se encherem de uísque e de guiar pela estrada um belíssimo conversível vermelho de estofamentos brancos (vejam os símbolos do american way of life), a mocinha, ao pedir que estacionassem o carro para ajudar um outro jovem num prego em meio à estrada, lê no outro automóvel um adesivo criticando o morticínio do povo árabe desencadeado pela sede de petróleo estadunidense. Insatisfeita e inconsolável porque seu pai, também a serviço do exército estadunidense, fora decapitado no Iraque, provoca e protagoniza uma cena de violência gratuita proferindo as seguintes pérolas contra o rapaz de aparência árabe: - Nossos pais, militares representando os interesses do estado estadunidense (o grifo é meu), não estão lutando por petróleo, mas para garantir uma paz de merda para vocês! Eles estão lutando para tirar o rabo de vocês da Idade Média!
Não bastasse o discurso distorcido justificando a cruzada democratista do capitalismo estadunidense, o filme peca um sem número de vezes nos sustos inúteis, nos efeitos piegas de fantasmas desaparecendo suavemente em total dissonância com o ritmo rápido da trama e no desfecho sem explicação para a maldição de Ted Cogan. Como se simplesmente não tivesse havido qualquer maldição ou loucura por parte de Cogan e houvesse apenas o fim de um crime violento e banal. Vejamos que a coisa posta assim, banaliza também o filme inteiro, tornando injustificáveis todos os acontecimentos sobrenaturais pelos quais passou o protagonista da trama.
Outra impressão que fica é que, longe de amalgamar equilibradamente diferentes gêneros cinematográficos numa única narrativa de cinema, como, por exemplo, O Exorcismo de Emily Rose (2005), cujo diretor conseguiu uma equação perfeita entre o ambiente sobrenatural do terror de possessão e a tensão dos tribunais. Diferentemente, Ecos do Além 2 mal conseguiu alinhavar de maneira grosseira, num primeiro momento, um filme de guerra; num segundo momento, um filme de terror sobrenatural; e, num terceiro momento, como desfecho, encaixando desastrosamente um filme policial. Enfim, Ecos do Além 2 é apenas um ecoar distante da qualidade incontestável de seu filme original.
Diferentemente, Ecos do Além 2 mal conseguiu alinhavar de maneira grosseira um filme de guerra, num primeiro momento; num segundo momento, um filme de terror sobrenatural; e, num terceiro momento, como desfecho, encaixado desastrosamente, um filme policial. Enfim, Ecos do Além 2 é apenas um ecoar distante da qualidade incontestável de seu filme original.




